A discuss�o sobre homossexualidade e religi�o (v�deo)

Assista o filme completo abaixo:

http://www.youtube.com/p/195740F4D0189282&hl=pt_BR&fs=1

“For the Bible Tells Me So”:
Uma cruzada pela verdade na discuss�o entre homossexualidade e religi�o

For the Bible Tells Me So fala de religi�o e homossexualidade, e dos inevit�veis (ser�?) conflitos que adv�m quando os dois se cruzam.

O filme come�a com uma cena cl�ssica da Anita Bryant, uma religiosa fan�tica que fez campanha contra homossexuais nos anos 70, levando uma tortada na cara (quem viu Milk vai lembrar dela). Isso j� � em si s� uma amostra de quanto os �nimos se acirram quando a quest�o religi�o e homossexualidade come�a a ser discutida em qualquer lado da balan�a. Em seguida vemos e ouvimos v�rios trechos de serm�es e discursos do naipe de “Estamos destruindo o alicerce da sociedade”, “Este pa�s est� fazendo de tudo para fazer as pessoas acreditarem que � ok ser gay. Quando n�o �. Por isso Deus destruiu Sodoma e Gomorra e por isso Deus vai destruir este pa�s”, misturados com imagens de passeatas por direitos gays e paradas.

Em menos de cinco minutos se voc�s forem como eu j� estar�o chocados com o discurso de �dio que � proferido contra a popula��o LGBT. Eu digo chocado n�o no sentido de surpresa, porque todos sabemos do que se trata (muitos de n�s j� sentiram na pele), mas no sentido de n�o conseguir aceitar a simples exist�ncia desse discurso. Eu sempre me sinto assim, n�o consigo me acostumar ao fato de milh�es de pessoas odiarem o que eu sou com tanta veem�ncia. Estou mais do que ciente da exist�ncia desse �dio e preconceito, mas por mais que eu ou�a e me informe e lute contra isso, a cada nova vez que eu escuto me vem a sensa��o de choque e incredulidade novamente.

Ok, mas continuando sobre o filme (estou revendo pela quarta vez pra escrever o post e j� estou com l�grimas nos olhos). As hist�rias s�o contadas atrav�s das perpectivas de cinco fam�lias religiosas que tiveram que lidar com um filho gay ou uma filha l�sbica. Aos poucos vamos nos familiarizando com esses personagens, com essas fam�lias que sofreram e ainda sofrem tentando aceitar a ideia de que um dos seus filhos queridos tamb�m � um dos que a B�blia condena como uma abomina��o. Como fazer para conciliar seu amor por um membro estimado da fam�lia com a convic��o de que a B�blia classifica ela ou ela como n�o naturais?

N�o quero entrar em nenhuma quest�o de religi�o espec�fica, mas acho que existe sim uma raz�o ou um prop�sito para que nas�a um filho ou filha homossexual dentro de uma fam�lia preconceituosa. Acredito que � uma das grandes ironias da vida (e, porque n�o dizer, divinas): � muito f�cil julgar o outro, o diferente, ter preconceito e condenar aquilo que pra voc� � alheio. Quantas vezes n�o vemos a religi�o sendo usada para propagar justamente esse �dio ao diferente? Mas como fazer quando de repente a diferen�a chega at� voc�? Quando n�o � mais o garoto efeminado da novela que � bixa, ou a menina de estilo moleque do seu bairro que � sapat�o, ou qualquer outro estere�tipo, o que fazer quando voc� descobre que o seu filho ou sua filha s�o aquilo que voc� sempre desprezou sem maiores considera��es? O document�rio lida com essas contradi��es. Cinco fam�lias religiosas que enfrentaram essa situa��o, algumas bem outras nem tanto.

Acho que o filme j� come�a desafiando essa quest�o de diferen�a. Os gays n�o s�o colocados como diferentes, e tampouco os religiosos. Ao inv�s de contar a hist�ria de um ponto de vista “n�s” versus “eles”, “homossexualidade” versus “B�blia”, “gays” versus “religiosos”, como se fossem lados opostos em uma batalha, o filme nos conta as hist�rias de quando n�o h� o diferente, nem de um lado nem de outro. Quando os dois lados fazem parte da mesma fam�lia. A ideia do filme � fugir dessa polariza��o e lidar com o assunto da melhor maneira, de uma maneira humana.

Ent�o vamos aos casos individuais. A primeira fam�lia � a de Gene Robinson. Eu n�o sei se voc�s j� ouviram falar dele, mas se ainda n�o sabem quem � deveriam ir atr�s. Ele foi o primeiro religioso abertamente gay a ser consagrado como Bispo na Igreja Episcopal. Um homem que quebrou barreiras e foi inclusive convidado a dar uma prece na inaugura��o das festividades da posse do Obama (no meio de uma pol�mica entre Obama e o movimento LGBT pelo fato do primeiro ter convidado um religioso anti-gay, Rick Warren, para fazer a ora��o no dia da inaugura��o). Os pais j� idosos dele falam de como Gene nasceu com problemas de sa�de, e de como eles agradeciam a Deus pelo filho ter crescido normalmente apesar dos m�dicos terem falado que ele sofreria com problemas de desenvolvimento. Eles se emocionam ao contar a hist�ria. � muito claro que amam o filho genuinamente e tem orgulho dele.

A pr�xima fam�lia a ser apresentada � a dos Poteats (ao lado). A fala que mais me marcou nos relatos dessa fam�lia � a do pai quando fala que rezava a Deus para seus dois filhos, um menino e uma menina. Que o menino n�o virasse uma bixa, e que a menina n�o se transformasse numa vadia. A grande ironia de acordo com ele � que Deus ouviu as preces dele. Foi a filha que se revelou l�sbica… (Sempre achei que foi exatamente o que aconteceu com meu pai…) Homossexualidade era uma coisa que ele nunca esperaria que acontecesse comigo, justo a filha menina (acho que as pessoas quando pensam em homossexualidade acabam lembrando s� dos gays mesmo tsc tsc). Em seguida os Reitans, que tem um filho adolescente gay, s�o apresentados e logo depois os Gephardts, que tem uma filha l�sbica.

Depois que as primeiras quatro fam�lias s�o brevemente apresentadas o document�rio foca um bom tempo na palavra “abomina��o”, que � como a B�blia descreve atos homossexuais em algumas passagens tais como Lev�tico 20:13. As entrevistas com as pessoas na rua mostram o quanto de ignor�ncia h� por tr�s da ideia do que exatamente a B�blia fala, j� que muitos nunca leram as tais passagens que condenam a homossexualidade. Na passagem citada o que acontece � que ao mesmo tempo em que classifica um homem deitar com outro homem como abomina��o, um pouco antes tamb�m classifica a ingest�o de frutos do mar como tal, e um pouco abaixo condena misturar mais de uma semente na mesma plantan��o como abomina��o. A leitura literal de apenas um verso fora de contexto � o mal que aflige aqueles que usam a B�blia para justificar seus preconceitos, conforme v�rios te�logos entrevistados.

O document�rio relata um pouco de como foi para os filhos e filhas se assumirem para si mesmos e depois para os pais. O processo � mostrado atrav�s dos dois pontos de vista e n�o h� como n�o se emocionar com alguns dos relatos. Me identifiquei com v�rias das hist�rias e acho que deve ser uma rea��o comum pra quem j� viveu isso na pele. Acho que em toda a hist�ria de se assumir e de assumir para os pais h� alguns elementos em comum: o medo de n�o ser aceito, medo de n�o ser mais amado, medo de ser motivo de vergonha para os pais, o medo de n�o se sentir parte de algo maior, entre outros por parte dos filhos; e por parte dos pais a sensa��o de n�o conhecer mais seu filho, o medo de que ele ou ela percam seu rumo na vida, o medo de um “estilo de vida” (n�o concordo com essa express�o) desconhecido, a sensa��o de ter todos os sonhos para aquela pessoa despeda�ados de uma vez s�… “Foi como uma morte” disse o pai de Jake, da fam�lia Reitan. Acho que � algo do g�nero para os dois lados… Em compensa��o existe tamb�m a sensa��o de renascimento, voc� sai disso tudo uma nova pessoa, a pessoa que voc� verdadeiramente �, e acho que no final os pais entendem isso (na maior parte das vezes).

“Amor incondicional” fala Dick Gephardt (um pol�tico proeminente do partido democrata americano), pai de Chrissie (foto acima). Ele resume bem o sentimento que precisa ser redescoberto para que haja a aceita��o. Chrissie teve muita sorte, seus pais a aceitaram imediatamente e a asseguraram que seu amor continuaria o mesmo e que a apoiariam sempre. Com certeza algo que muitos de n�s ainda esperam ouvir. J� aviso que �s vezes demora um pouco, como no meu caso e a dos outros no document�rio.

Foi o caso de Jake, da fam�lia Reitan (na foto acima com os pais). Seus pais n�o sabiam como lidar com a situa��o e procuraram o apoio de um pastor parente deles que os aconselhou a n�o aceitar o filho como homossexual, que ele poderia mudar e que o faria com a ajuda da igreja e deles. Sugeriu que algumas pessoas passam por fases na vida onde sentem atra��o pelo mesmo sexo e que talvez fosse o caso com Jake, que ainda era adolescente. Eu pergunto a todos os pais com filhos gays ou quaisquer outras pessoas com essa ideia: ser� que � realmente plaus�vel que algu�m escolha voluntariamente passar por esse tipo de sofrimento por um sentimento passageiro? Eu pergunto pra quem acha que ser gay ou l�sbica � quest�o de escolha, de “estilo de vida”: quem escolheria sofrer preconceito diariamente? Se fosse uma escolha realmente, quem escolheria isso? Quem escolheria o medo de ser rejeitado pelos pr�prios pais? � claro que n�o temos escolha, nascemos assim e somos obrigados a enfrentar uma sociedade inteira para termos uma chance de ser felizes. Eu acho que cada um de n�s deveria receber um pr�mio, s� pela coragem de assumir ser algo diferente do que a sociedade dita para voc�.

O que alguns programas religiosos ditam � que homossexualidade � uma escolha e que o que voc� deve fazer para “salvar” seu filho � n�o aceit�-lo. Isso � a pior coisa que se pode fazer numa hora dessas, diz uma psic�loga no document�rio. � justamente o per�odo mais fr�gil na vida de algu�m e pode ser devastador ser rejeitado pelas pessoas que voc� mais depende. A hist�ria da quinta fam�lia no document�rio mostra isso claramente. A m�e, Mary Wallner (ao lado com as duas filhas), conta como rejeitou sua filha (direita na foto), como usou as passagens da B�blia para dizer as coisas muito pouco am�veis como “eu te amo, mas sempre vou odiar isso em voc�”, na maneira que julgava correta pelas intru��es da igreja.

Isso afastou Anna, a filha, cada vez mais at� que ela cometeu suic�dio. Infelizmente essa � uma realidade no nosso mundo, gays e l�sbicas s�o tr�s a sete vezes mais propensos a cometer suic�dio, e essa taxa aumenta ainda mais quando se trata de adolescentes. Acho que as pessoas n�o conseguem entender inteiramente o que � sentir solid�o por completo, o que � sentir-se o �nico no mundo. O que � sentir-se realmente s�. Um dos entrevistados que trabalha numa ONG de preven��o ao suic�dio do estilo do CVV diz que uma das cinco maiores raz�es para os jovens ligarem para pedir apoio � por raz�es religiosas. O que a Igreja faz � criar um mundo onde a pessoa se sente ainda mais s�, como se nem Deus aprovasse da sua exist�ncia, como se n�o houvesse maneira de conciliar f� e homossexualidade. Um mundo onde a primeira resposta � o �dio a si mesmo, � a falta de aceita��o de si mesmo. Um mundo onde h� o medo de falar com os pais, com os professores, com os l�deres religiosos, com os amigos, etc.

E o que acontece tamb�m � que se cria um mundo onde a viol�ncia contra gays e l�sbicas � justificada pela B�blia. Assim como a B�blia foi erroneamente usada para validar escravid�o, opress�o contra as mulheres, apartheid, anti-semitismo, e asim por diante, hoje � usada para justificar preconceito com a popula��o LGBT. N�s somos o novo “outro”. O clima pol�tico � um em que a viol�ncia contra gays e l�sbicas � tida como um ato divino, algu�m fazendo a vontade do Senhor. A mensagem de amor e compaix�o expressa na B�blia fica perdida em meio � aliena��o do preconceito.

“Minha cren�a teol�gica � que todas as rela��es baseadas em amor s�o honradas por Deus” diz um dos entrevistados. Amor � um sentimento divino, como poderia ser condenado por Deus? Em que realidade seria plaus�vel que Deus condenasse um amor t�o puro quanto qualquer outro? “Jesus sempre abra�ou os exclu�dos, como algu�m usaria suas palavrar para excluir um grupo de pessoas e se proclamar crist�o n�o faz sentido para mim” diz outra entrevistada. Amor, inclus�o, compaix�o: esses s�o os sentimentos ensinados por Jesus. Onde as pessoas encaixam preconceito dentro disso n�o entendo.

Um rabino entrevistado lembra que na B�blia um homem adquiria sua mulher. N�o fazemos mais isso, diz ele. O conceito de casamento mudou desde aquela �poca, completa. Ent�o porque ser� que as pessoas tem tanto medo de redefinir o que � o casamento? Dizem que a legaliza��o das uni�es gays ir� redefinir o que significa casamento. E da�? � o que se faz com o passar do tempo, se redefinem as coisas. O conceito de casamento vem mudando h� s�culos, justamente agora significar� o fim da sociedade? N�o era o que diziam do casamento interracial? Do div�rcio? Pelo que me consta essas foram redefini��es do que � casamento e ainda continuamos aqui, o mundo ainda n�o acabou.

“Eu n�o consigo imaginar, por mais que tente que Deus puna as pessoas dessa maneira. Eu vou te punir porque voc� � negro, voc� deveria ter sido branco. Eu vou te punir porque voc� � mulher, voc� deveria ter sido homem. Vou te punir porque voc� � homossexual, voc� deveria ter nascido heterossexual. N�o consigo realmente imaginar que seja assim que Deus veja essas coisas.” Desmond Tutu, arcebispo e nobel da paz pela sua luta contra o Apartheid.

Pronto, estou eu aqui novamente chorando ao terminar de assistir esse document�rio. Acho que � o tipo de filme que tinha que ser mostrado nas salas de aula. As legendas em portugu�s demoraram um tanto, mas est�o dispon�veis nesse link. O filme em ingl�s est� dispon�vel na �ntegra no Youtube, mas tamb�m � bem f�cil de conseguir para baixar nos caminhos usuais. Acho que ficou claro pelo meu post imenso que eu mais do que recomendo. � dos meus filmes favoritos de todos os tempos e programa obrigat�rio para voc�s minhas leitoras e leitores.

Fonte: Or�culo de Lesbos

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