O Cristianismo e a Nova Consciência

Marcelo Barros[1]

 

Nova Consciência é um novo modo de ver o mundo e de viver a relação espiritual da pessoa consigo mesma, com os outros, com o universo e, para quem quiser, com a fonte do amor universal que as religiões tradicionais costumam chamar “Deus”, termo indo-europeu que significa “Luz”. Para muita gente este novo paradigma, mais holístico e sintético, supera as velhas religiões que dividem a humanidade e apresentam quase sempre visões fragmentárias e analíticas. É interessante notar que, de certa forma, em contexto histórico e humano muito diverso, esta visão já tinha aparecido no mundo em outras épocas muito antigas. Quando no século V antes da nossa era, na China, o sábio Confúcio apresentou a sua proposta de sabedoria espiritual, o confucionismo apareceu como crítica às antigas religiões chinesas e foi acusado de “ateísmo”. Na Índia, Sidharta Guatama, o Buda, propôs que o ser humano deixasse de adorar imagens e mitos externos a si mesmo e trabalhasse a sua própria iluminação interior, sem cair no individualismo, conduzido pela compaixão universal e solidariedade concreta a toda dor humana. Na mesma linha, a proposta de Jesus de Nazaré significou uma crítica ao Judaísmo de sua época. Ele não rejeitou a religião, mas relativizou-a e propôs que todo ser humano, através da solidariedade amorosa com o próximo, se tornasse templo do Espírito.

Conforme os Evangelhos, a primeira palavra de Jesus ao povo foi um apelo à conversão, tradução do grego metanóia que, literalmente significa “mudança de mente” ou como dizemos hoje: “nova consciência”.

Inspirados pelo movimento profético de Jesus, seus discípulos e seguidores, posteriormente, fundaram comunidades a que chamaram de “Igrejas”, termo grego usado na época para as assembléias de cidadãos livres nas cidades do Império Romano. Com o tempo, estas Igrejas, ou assembléias locais de irmãos e irmãs foram assumindo uma organização mais hierárquica que não tinham no início. A história da Europa levou às Igrejas do Ocidente a se tornarem dioceses de uma Igreja centralizada com sede em Roma. No século XVI, como reação a esta centralização monárquica, surgiram as Igrejas evangélicas, geralmente organizadas em federações.

Atualmente, em todo o cristianismo, se fortalece um movimento de profunda renovação. Ele busca restituir a cada comunidade o seu caráter de Igreja em seu sentido pleno, em comunhão com as outras Igrejas irmãs. Propõe-se a ajudar cada Igreja a se ver, não como uma instituição que tem sua razão de ser em si mesma, mas como serviço libertador para toda  humanidade. Em termos evangélicos: A finalidade de uma Igreja cristã é ser testemunha do reino de Deus, ou seja, do projeto divino para o mundo.

Um antigo atributo que toda Igreja cristã assume é o de ser “católica”, termo grego composto de dois vocábulos: katos e holos. Este último é o termo que deu origem à palavra holístico, ou seja “chamado à universalidade”. Tertuliano, escritor cristão do século II, explicava isso dizendo: “A quem quer ser cristão, nada do que é humano pode ser estranho”. Quem aprofunda esta base teológica do cristianismo descobre que o cristianismo tem de ir além das Igrejas. Consiste em um movimento profético que busca unir paz, justiça e cuidado amoroso com todo o universo. Por isso, toda pessoa profundamente impregnada do espírito do Cristo só pode aderir a este impulso espiritual da Nova Consciência.      


[1] – Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo da libertação, é autor de 30 livros, entre os quais o mais recente é “A Vida se torna Aliança”, (Orar ecumenicamente os Salmos), Ed. CEBI- Rede da Paz, 2005 e está no prelo “Não deixe cair a profecia” (A herança de Dom Hélder Câmara para o século XXI). Email: mosteiro@rededapaz.com.br

 

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