Salve o bloco da nova conciência – Fogo Intolerante

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FONTE: http://www.terra.com.br/revistaplaneta/edicoes/417/artigo52629-2.htm

EVENTO
Salve o bloco da nova conciência
Campina Grande (PB) abrigou mais uma vez, nos dias de Carnaval, um dos maiores eventos para a ciência, a cultura, as artes, as tradições religiosas e tudo que diz respeito ao patrimônio cultural imaterial: o Encontro da Nova Consciência. PLANETA convidou o escritor e roteirista Ricardo Kelmer, participante habitual dos encontros, para fazer seus comentários a respeito.

Por Ricardo Kelmer
Fotos: César de Cesário

Fogo intolerante
Nesses 16 anos de Encontro da Nova Consciência, o evento cresceu tanto que hoje incorpora mais de 50 eventos paralelos, entre encontros, seminários, vivências, oficinas, espetáculos artísticos, mostras, feiras e passeios.

Milhares de pessoas saem de suas casas, boa parte vinda de outras cidades, para se unirem sob o lema da paz e da harmonia. Apesar das imensas dificuldades de se realizar um evento desse porte num dos mais pobres Estados do País, e tendo sempre que se equilibrar entre os conflitos políticos e eleitoreiros da região, o encontro prossegue. Não é fácil chamar a atenção para questões como paz, educação e ecologia em pleno reinado de Momo, mas a Nova Consciência não desiste e todo ano bota seu bloco na rua.

…Ritual xamânico
Chandra Mukha Swami (com o microfone) durante a caminhada. Abaixo: dois momentos de uma cerimônia xamânica.

Surgiu nos últimos anos, porém, uma nova dificuldade, que surpreende por bater-se radicalmente contra a pacífica proposta do evento: o fanatismo religioso. Desde o início grupos que se dizem evangélicos organizados discordaram do caráter macroecumênico e multicultural do evento e não suportaram a idéia de Campina Grande organizar um encontro para unir cristãos, muçulmanos, judeus, umbandistas, hare krishnas, índios, bruxas e ciganos, além de roqueiros, jogadores de RPG, dançarinas do ventre, líderes comunitários, prostitutas e homossexuais. Todos sempre são convidados a participar, mas para esses “evangélicos” tudo isso é diferença demais para ser tolerada e infelizmente eles nunca aceitaram se integrar.

Com o tempo, essa oposição se acirrou, apesar de líderes evangélicos terem criado seu próprio evento, que hoje acontece em paralelo ao da Nova Consciência, ocupando outros espaços da cidade. Mas a estratégia missionária dessas facções radicais não parou aí: além de realizar palestras onde insistem que as outras religiões são “obra do demônio”, seus integrantes fazem manifestações de repúdio ao Encontro da Nova Consciência, ocupam espaços não permitidos e xingam as pessoas na rua.

Inquisição. Foi disso que lembrei este ano quando um grupo vestido de preto acendeu tochas à entrada do teatro onde o Nova Consciência se realiza e distribuiu panfletos, impedindo as pessoas de entrar e gritando sobre uma tal guerra entre o bem e o mal. Enquanto isso, lá dentro do teatro, duas bruxas wiccas falavam de amor à humanidade e respeito à natureza. Pela primeira vez, em 16 anos, foi preciso chamar a polícia, e o caso agora está na Justiça, pois configura desrespeito ao livre exercício da religiosidade, o que é garantido pela Constituição brasileira. Evidentemente não podemos cair no erro da generalização. A intolerância ocorre em todas as religiões e mesmo entre os evangélicos há pessoas que lutam pelo diálogo inter-religioso, como o pastor presbiteriano Nehemias Marien, falecido em 2006, que participou do evento desde a sua criação. Mesmo criticado por alguns de seus irmãos de religião, Nehemias perseverou e hoje sua vida é um exemplo para todos os que lutam pela paz e união entre os diferentes.

Esses fatos de Campina Grande são o microcosmo de uma macrossituação que se repete todos os dias no mundo inteiro e nos assombra: o fanatismo religioso. Mesmo com todas as sangrentas lições que a história já nos ensinou, o fanatismo está bem vivo. Em vez de buscar o que temos em comum, o extremista religioso se apega às diferenças. Em vez de reconhecer e lidar com o mal dentro de si mesmo, o fanático projeta-o inconscientemente no outro, na outra religião, na outra cultura, na outra torcida, e assim a arquetípica guerra entre o bem e o mal é travada sempre no exterior, enquanto nos recônditos da alma o mal é alimentado pela própria negação de sua existência interior.

Não sei quantas cenas lamentáveis o fanatismo religioso ainda nos trará. Mas, como um animal que pressente a própria morte, ele agora se debate com as últimas forças que lhe restam. Sim, pois está condenado. Por ele mesmo. Em sua visão estreita, o fanático não entende que a espécie humana só sobreviveu até hoje porque soube misturar-se e fazer da diversidade uma força evolutiva. O fanático é, por essência, unilateral, e entende um só caminho, o seu; e só admite uma única forma de vivenciar a realidade, a sua. Sem aceitar a natureza múltipla da realidade, o fanatismo não aceita a própria realidade e luta contra ela. Por isso está condenado.

Contra algo que crê firmemente em ilusões como superioridade racial e religiosa, os argumentos de nada adiantam. A luta então deve ser travada dentro da lei, garantindo legalmente o exercício das crenças e punindo o desrespeito à liberdade. Devemos também incentivar as pessoas a conhecer o mundo e, assim, a perder o medo do diferente. Devemos incentivá-las a expandir seus horizontes e, para isso, dispomos da facilidade das comunicações, dos transportes rápidos, da Internet. Sim, a globalização traz coisas ruins, mas também traz a vantagem de nos pôr em contato uns com os outros como jamais ocorreu antes.

Imagino que valores como cidadania planetária, liberdades individuais e respeito às diferenças podem soar ingênuos num mundo em que os fanatismos parecem ser invencíveis. Mas toda revolução, no início, é uma utopia.

Apesar do fanatismo, os valores de uma nova consciência se espalham mundo afora, feito um bloco que arrasta a multidão pela avenida. A Terra é meu país e a humanidade minha família – este é o lema que brilha em seu estandarte revolucionário. É por isso que todos os anos vou a Campina Grande renovar minha esperança, vestir a camisa desse bloco. Talvez você, mesmo sem jamais ter ido lá, também faça parte dele.

Ricardo Kelmer (www.ricardokelmer.net) é escritor e roteirista e mora em São Paulo.

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