A verdadeira jihad – E o XV Encontro da Nova Consciência

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            No meio do caminho havia um sheik. Havia um sheik no meio do caminho. Eu precisava passar, mas as longas pernas do sheik tornavam totalmente impossível trilhar o curtíssimo caminho entre o corredor do avião e minha poltrona ao lado da janela. Sendo um homem sensível, imediatamente o Sheik Jihad Hassan Hammadeh percebeu o impasse e levantou-se para que eu pudesse me acomodar, desculpando-se com um ar constrangido. Tentando retribuir a simpatia, puxei assunto e descobri naquele momento que tínhamos o mesmo destino: Campina Grande, na Paraíba. Faríamos conferências no XV Encontro da Nova Consciência, um evento ecumênico pela cultura da paz e o desenvolvimento sustentável que ocorreu entre os dias 24 e 28 de fevereiro deste ano.

 

            Eu, uma jornalista que passou toda sua vida adulta transitando entre o ateísmo e o agnosticismo, guardava uma enorme ansiedade por este encontro multi-religioso. Vivia uma nova fase de minha vida. Começava a ampliar meus horizontes em direção a um mundo invisível que se descortinou quando iniciei uma pesquisa com médiuns que realizavam curas espirituais. Minhas convicções atéias começavam a cambalear à medida em que infinitos fatos inexplicáveis sob a luz da ciência tradicional desfilavam diante de minha racionalidade científica.

 

            Sendo eu uma jornalista compulsiva, não pude desperdiçar a possibilidade de saraivar o sheik ao meu lado com uma infinidade de perguntas sobre o Islã. Ele, que, coitado, caso desejasse não teria muito como fugir de mim, já que o avião estava lotado, respondeu a todas elas sem se preocupar com a hora-extra que fazia, concedendo “entrevista” madrugada adentro. Uma das primeiras perguntas que fiz foi relativa ao seu nome: “jihad significa mesmo ´guerra santa`, como é traduzido aqui no Ocidente?” Ele lembrou que o termo “Guerra Santa” é oriundo das cruzadas cristãs, não dos movimentos muçulmanos. E que a palavra jihad significa esforço em relação ao bem ou a Deus. Assim, no vôo entre São Paulo e Campina Grande, viajamos por milhares de quilômetros de questões e pude ter uma visão bem mais clara sobre a religião islâmica. Mas isso era só o começo. Nos cinco dias que se seguiram, mergulharia neste XV Encontro da Nova Consciência – uma das  maiores festas ecumênicas do mundo – e, além do islamismo, conheceria melhor o Movimento Hare Krishna, as religiões de matriz africana, os budismos shin e zen, a devoção a Sai Baba, o xamanismo, o espiritismo, a Ordem Sufi Halveti Jehahi, o que pensava o grupo de ateus e agnósticos, os representantes das tradições ciganas,  da religião científica e dos cristãos socialistas libertários, entre outros. Um périplo intelectual-religioso sem fim.

 

            Quando escolhi a primeira conferência que assistiria, “Deus morreu?”, de Rogério H. Zeferino Nascimento, no Grupo de Ateus e Agnósticos, mal sabia que viveria minha “experiência intelectual” mais democrática, digamos assim. Findada a palestra de altíssimo nível, alguns de nós, da platéia, nos reunimos junto ao orador para comentarmos em petit comité algumas questões por ele levantadas. Um moço muito articulado falava comigo entusiasmado, cheio de idéias, gesticulando sem parar, quando notei algo em sua roupa: ele vestia um improvável conjunto de calça e camisa cor de abóbora. Percebi, para meu espanto, que o intelectual que então conversava comigo era gari por profissão.  Depois de mais de vinte anos participando de debates acadêmicos, pela primeira vez em minha vida pude conversar de igual para igual com um gari que, descobri mais tarde, é conhecido como Manuel da Cachoeira. Se eu já estava impressionada com o caráter democrático desse encontro que abriga tantas crenças diferentes, algumas antagônicas inclusive, a partir daquele instante me certifiquei de que a democracia era vivida naquele evento em sua radicalidade, como numa sociedade ideal. Seria isso o que chamam de “nova consciência”?

 

            A grande dificuldade que tive nos dias que passei por lá, no sertão da Paraíba, era decidir de qual evento do XV Encontro eu participaria. Havia uma profusão de palestras, mesas redondas, cursos, mostras de cinema, e até mesmo sessões de terapias alternativas como curas xamânicas, retiradas de implantes holográficos, shiatsu emocional, florais da Amazônia, reiki, tarot terapêutico, além do cigano. Podia participar ainda de sessões de hipnose, acupuntura, ter meu futuro iluminado por uma consulta de astrologia, runas ou búzios. Aliás, foi neste Encontro que tive minha primeira experiência com búzios. Conheci Iyá Sandra Medeiros Epega, representante da Tradição de Orixá, religião de origem africana que completa agora nada menos de 10.050 anos. Ela, mulher cultíssima, talvez a pessoa que mais conheça a língua ioruba no Brasil, propôs-se a jogar búzios para mim. Para meu espanto de recém ingressa no mundo da espiritualidade, aquelas conchinhas caídas sobre um pequeno lenço contaram para ela mais sobre minha vida do que eu já havia contado para meu analista. Surpresa, disse “ Iyá Sandra, você é uma grande médium!” Ela me respondeu “Eu não, não sou médium não, os búzios é que são matemáticos. Isso é matemática pura.”

           

            Naquela tarde saí desta sessão de “matemática pura”, uma ciência exata que jamais conheci na escola, absolutamente espantada e decidi ir para o hotel tentar sistematizar um pouco da enorme quantidade de informações que havia me embriagado. Quando entrei no Hotel Serrano, onde me hospedava, encontrei no saguão a especialista em anjos Mônica Buonfiglio que havia conhecido no dia anterior e que, àquela altura do campeonato, já havia se tornado uma grande amiga. (Sim, parece que nesses Encontros de Campina Grande tudo acontece intensa e rapidamente). Sentei no sofá para conversar com essa autora que aos 43 anos já publicou 53 livros – sendo que seu “Anjos Cabalísticos” vendeu mais de oito milhões de exemplares, uma cifra que, digamos, é mais do que o sonho de qualquer escritor. Começamos a falar amenidades, as duas estavam muito cansadas. Mas eis que, em um dado momento, Mônica, que é médium das boas, torna sério seu semblante e transmite uma mensagem que estava recebendo da espiritualidade para mim. Passou então a falar da minha vida pessoal, do meu trabalho, da missão que vim cumprir… “É um recado para você”, ela contava. Dispensável dizer o quanto isso me impactou, especialmente pelo fato de que todas as informações que ela deu a meu respeito, que poderiam ser verificadas, estavam corretas. E eu que ingenuamente tinha me dirigido ao hotel para digerir as informações de Iyá Sandra que quebravam os meus paradigmas, mal sabia o que me aguardava. Decidi então dar uma caminhada para tomar um sorvete de cajá e precisei de muitas quadras e muitos sorvetes para ficar, por assim dizer, um pouco menos atônita.

 

            É preciso fazer justiça ao saguão do Hotel Serrano. Ali se continuava a travar  debates profundos sobre religião e espiritualidade. Confluíam para lá, no fim da noite, melhor dizendo, alta madrugada, palestrantes ou participantes do XV Encontro que se hospedavam no hotel. Embora estivessem todos exaustos pela maratona diária, quase ninguém conseguia resistir aos debates patrocinados pelos jornalistas Luis Pellegrini e Pedro Camargo que seguiam noite adentro entre garrafas de vinho. O velho jargão “tempo é dinheiro” aqui se transformava em “tempo é cultura e prazer” e queríamos que os dias em Campina Grande tivessem  48 horas, no mínimo.

 

            As horas passavam mesmo rápido demais. Mas eu não me perdoaria se deixasse de dividir meu tempo entre os shows de música brasileira que se realizavam todas as noites numa praça pública atrás do Teatro Municipal Severino Cabral. Como as outras atividades do XV Encontro da Nova Consciência, os shows também eram gratuitos e reuniam uma infinidade de pessoas. Foi lá que pude assistir ao ponto alto dos eventos musicais: a banda paraibana Cabruêra num improviso com a cítara de Alberto Marsicano e a flauta de Waldemar Falcão. O mesmo Waldemar, autor do respeitado livro “Encontros com médiuns notáveis”, uma referência no estudo da mediunidade e que, dias antes, havia dado uma palestra sobre o assunto. Curiosamente, Waldemar falou depois de outro “médium notável”, Divaldo Franco, uma das estrelas do Encontro. Enfim, era preciso ter muita energia para aproveitar todos os cinco dias desse “Woodstock da espiritualidade”, como diria o jornalista Ricardo Kelmer.

 

Talvez o coroamento das experiências que vivi nestes cinco dias tenha sido algo antes inimaginável para alguém de origem marxista como eu. Recebi a benção num batismo ecumênico realizado por representantes de sete diferentes tradições religiosas numa celebração ao ar livre bafejada a cachimbo xamânico. Era mesmo curioso ver minha madrinha Íris Medeiros e meu padrinho Luiz Petry batizando esta criança quarentona em meio a outras de colo. Mas nada tirava a emoção daquele encontro no qual representantes de tão diferentes crenças foram capazes de se unir num laço de mais profundo respeito. Naquele momento ficava evidente o quanto os Encontros de Campina Grande são uma celebração à diversidade, ao respeito às diferenças e, acima de tudo, à compreensão de que somos um só corpo, uma só vida, ainda que nossas crenças não sejam as mesmas.

 

Monja Cohen me explicou “nós, budistas, acreditamos no Diabo como sendo aquele que divide, que é dual, oposto ao uno.” São Cipriano completaria “a unidade abole as divisões, mas respeita as diferenças”. Nestes Encontros da Nova Consciência, celebrada a unidade, abolidas as divisões, respeitadas as diferenças, vivemos, nas palavras do Sheik Jihad Hassan Hammadeh, “a verdadeira jihad”.

 

Revista Planeta – Abril de 2006.

 

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